Chorei lendo esse texto.
Estar longe de casa é um exercício de estar mais perto de si mesmo do
que nunca. É ser você em plenitude e aí sempre tem a pergunta: você
agüenta ser você? Porque já não há amigos de infância para avisar que
você está mudando, já não há pai e mãe para te pedir juízo, já não há
sua casa com aqueles recônditos que dizem tanto sobre você. Estar longe
de casa é descobrir-se outro: aquele que você sempre foi e não
deixavam.
Lentamente, todas as pequenas coisas dessa distância passam a existir
dentro de você. O nome das ruas, as linhas de metrô, o telefonema pra
casa no domingo à noite. Tudo isso passa a haver em seu interior de uma
forma natural, é sua vida, é você. E como era estranho antes pegar a
linha cinza, descer numa estação de nome intraduzível e pegar em seguida
a linha verde. De repente, é isso que você faz todos os dias, é essa
sua rotina, é isso estar longe de casa.
As línguas, os dialetos, as gírias: tudo isso é novo e tudo isso
subitamente já não é. Você não necessita mais traduzir-se e entende os
costumes mais diferentes (café da manhã com pão doce e chá verde já não
causam estranheza), entende que o sol nasce do lado contrário ao que
nascia, entende a saudade. Porque sim, dá muita saudade. Do calor das
pessoas que te amavam e não eram uma conquista paulatina até que se
pudesse dar dois beijinhos na despedida. Aqui, você está sendo testado
todos os dias, é o elemento dissonante das reuniões, todos estão em casa
menos você.
E que saudade da mãe com os dedos fincados delicadamente entre os
cachos, dizendo naquela rudez suave de mãe que está na hora de ir
trabalhar. E que saudade do pai assistindo o Jornal Nacional e
adormecendo enquanto Fátima Bernardes e William Bonner entoam suas
diárias canções de ninar. Que saudade sabe de quê? Do suor que escorre
pelas costas cada vez que você sai na rua, do almoço de domingo que era
sempre frango porque domingo tinha que ser diferente (dos outros dias da
semana, mas nunca dos domingos), que saudade do negro na pele, do
vermelho nos olhos, do sangue fervendo em todo mundo.
Na sua nova casa tudo funciona, todos são educados, parece tudo
perfeito. Mas tem uma coisa que falta sempre que você observa o
movimento uniforme das ruas, as cadeiras dessas pessoas, os rostos. Tem
um quê ausente nos abraços, nos beijos de despedida, nos apertos de mão.
Tem calor faltando por aqui e você não pode reclamar: você veio porque
quis.
Aliás, estar longe de casa tem muito a ver com isso: você faz as
escolhas e então não pode reclamar delas. Ora, se já não há pai, mãe,
amigos, toda aquela gente que tenta o melhor pra você, o livre arbítrio
está todo em suas mãos. Nas decisões erradas é você e só você. O ruim é
que nas certas também.
Estar longe de casa é abrir uma garrafa de vinho de 55 centavos às
quinze pra meia-noite, deitar numa cama fria por baixo de cinco
cobertores, ouvir Nina Simone quase chorando (você e ela), fechar os
olhos pra saudade e sorrir. Porque não tarda pra você estar perto de
casa novamente. Mesmo que você permaneça exatamente onde está.








6 comentários:
p.s.: rebloga-lo-ei
Copèiarei mais adelantche, se me permite.
xx
Complicado comentar, foi direto na veia.
É nesses momentos que a saudade aperta que a gente vê quanta coisa nós tínhamos no Brasil e o que escolhemos pra nossas vidas.
Muito bom texto!
Bj,
Marília
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